Cartas Abertas aos Encontros Brasileiros

Em 2012 recebemos uma afetiva Carta Aberta aos participantes do VII Encontro Brasileiro Sobre o Pensamento de Donald Winnicott, escrita por José Carlos Guedes. Naquela carta poema, a memória do encontro, em terras cearenses foi narrado em prosa poética. De lá para cá, a novidade fez-se tradição e já são dez cartas abertas. Em 2018 o evento retorna à Fortaleza. Sejam todos bem vindos a rabiscar mais uma página da literatura psicanalítica.

CARTA ABERTA AOS PARTICIPANTES DO XIII ENCONTRO

Ainda em Brasília, rela em nossos ouvidos uma brisa suave e morna, uma espécie de siroco nordestino. Chegava para segredar um convite para voltarmos ao Ceará, com a promessa de acolhimento para o XIII ENCONTRO que traz a grife: “GESTOS ESPONTÂNEOS”. De Brasília à Fortaleza. Viajemos!

Nos preparativos da viagem nos ocorrem doces sentimentos do profícuo ENCONTRO de Brasília. Flashes de uma cidade com a marca indelével da genialidade de Oscar Niemeyer. Ficamos a imaginar deslizando por suas mãos, como no voo das aves do cerrado, rabiscos elegantes de curvas sinuosas e sensuais, iluminando a criatividade brotada em gestos espontâneos de sua singular potencialidade. Foi assim, como quem tira um coelho da cartola, que Niemeyer ofereceu aos aplausos a Nova Capital. Não podemos nos olvidar de colocar em nossas bagagens essas lembranças, elas podem fertilizar ideias para o ENCONTRO de Fortaleza.

Ao entregar a cidade pronta Oscar foi contundente: “Nada disso seria possível sem a força e o trabalho dos candangos”. Candangos oriundos do nordeste e em grande número do Ceará. Já preconizara Euclides da Cunha em “Os Sertões”: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Uma força solitária e tão necessária, acalantada na imagem poética de Catulo da Paixão Cearense em “Luar do Sertão”: “ Não há, oh gente oh não/ luar como esse do sertão/ Se a lua nasce por detrás da verde mata/ mais parece um sol de prata/ prateando a solidão. Oh, povo do sertão! Tão sofrido e humilhado. Como pode ser tão generoso?!

Estaremos em Fortaleza. Ela nos espera. Fortaleza vem de forte. Cidade praieira, iluminada, como nos apresenta o poeta cearense Paulo Ney: “Fortaleza é a loura desposada do sol”.

Um convite para irmos a essa terra abençoada, tão nossa, ao encontro da encantadora alcunha, “Ceará moleque”. Um avocar à molecagem, tão própria à criança que nos habita. Um convite à liberdade de criar, brincando ao som de Winnicott: “É no brincar, e somente no brincar que podemos ser criativos.” Saibamos que o cearense não brinca, ele fresca. Vamos frescar, trazendo à baila, sem solipsismo, a sisudez pretensamente acadêmica, transvestida de seriedade. Que bom que a mãe Fortaleza se dispôs acolher nossos gestos espontâneos. Ah, essa prazerosa sensação de poder ser!

Tudo isso nos remete às experiências culturais que, quando alicerçadas à tradição, compõem a cultura cearense. Estejamos certos que poderemos contar com um escorreito banquete cultural a alimentar nossos laivos de inspiração. Uma admirável e eclética fartura, temperada com pitadas de gestos espontâneos e criatividade, prenha de originalidade, aos cuidados dos chefes de cozinha cearenses merecedores de fama e reconhecimento internacionais. E bem sabemos que a gastronomia é a única manifestação cultural que atende aos cinco sentidos. Vai ser um privilégio voltar a saborear nessa fonte inesgotável de história, cultura e alegria. Um cardápio tão vasto que requer uma rigorosa síntese para nossa apreciação. Literatura, música, cinema, artes plásticas, dança e teatro.

Podemos começar por Rachel de Queiroz. Primeira mulher a ocupar uma cadeira na ABL. Aos dezenove anos, Rachel publicou “O Quinze”, focado na luta do povo nordestino contra a fome e a miséria. Ou então José de Alencar com “O Guarani” e, em prosa poética “Iracema”, considerada uma “Lenda do Ceará”. Vale conhecer a escultura de Iracema e seus lábios de mel na praia que leva seu nome.

Na música uma homenagem ao irreverente e simpático bigodudo que nos deixou recentemente, Belchior. Na parede da memória a lembrança de que ainda somos os mesmos e vivemos “Como os Nossos Pais”. E que nos confessou ser “Apenas um Rapaz Latino Americano”. Outra opção, de diferente diapasão, Eliezer de Carvalho que chegou a regente da OSB. Há também Alberto Nepomuceno, o pai do nacionalismo da música erudita do Brasil.

Quem preferir o cinema terá ao seu dispor, Luís Carlos Barreto e Zelito Viana. E na “telona” Renato Aragão e o incomparável, versátil e múltiplo, Chico Anysio.

Aos apreciadores das artes plásticas, a beleza estética e revolucionária de Antônio Bandeira, o pioneiro da arte abstrata brasileira.

Apetites saciados, resta celebrar! Presentes estarão os forrozeiros afinados em acordeons, azabumbas e triângulos. Um pouco mais discretos, os seresteiros com suas melodiosas sanfonas. Poderemos curtir também os hilariantes desafios dos repentistas. Ah, o baião! Sim, o baião, criação de Luiz Gonzaga com o cearense Humberto Teixeira. O baião que nos traz um enigma a ser decifrado: “De onde vem o baião?” Para não sermos devorados, fomos salvos por Gilberto Gil: “vem debaixo do barro do chão”. Ufa!!! Obrigado Gil!

E o teatro? Bem, peço vênia aos monstros sagrados dos palcos cearenses para incluir nessa rubrica, nossa trupe. No último ENCONTRO em Fortaleza, tivemos a honra de apresentar a peça “MARESFIELD GARDENS”, com o cintilante roteiro da dedicada colega Luiza Moura e sob a batuta de Ana Leão. Todos os atores fazem parte da nossa tertúlia. E como representaram bem. Representar papéis parece não ser novidade para nós. Desenvolvemos essa capacidade em nossa clínica no exercício da transferência.

A peça tratava da comemoração do último aniversário de Sigmund Freud. Além de Freud, estavam presentes seus convidados: Winnicott, Salvador Dali, Lucian Freud, Virginia Woolf e seu marido Leonardo Woolf. No papel de Freud nosso saudoso José Outeiral. Freud nesse encontro comemorativo de seu último aniversário, sem que soubesse estava se despedindo para sempre de seus amigos. Outeiral, que representava o papel de Freud, sem que soubéssemos também estava se despedindo para sempre de nossos ENCONTROS. Talvez o nosso querido Outeiral tenha escolhido Fortaleza para encomendar a jangada que iria utilizar em sua viagem para além do além da linha do horizonte. Sua última viagem!

Outeiral partiu
num gesto espontâneo.
Assim. De repente.
Outeiral se pôs
como o sol poente.
Outeiral falhou
por ser bom o suficiente.

 

 

Comentários

Querido Guedes e todos os amigos e colegas

Emocionada, agradeço tua Carta Aberta aos Participantes do XIII Encontro Brasileiro sobre o pensamento de D.W.Winnicott que acontecerá em Fortaleza nos dias 20, 21 e 22 de setembro 2018 com o tema: O Gesto Espontâneo.

Pela segunda vez, Fortaleza acolhe o Encontro  Brasileiro. A Dra. Regina Alcântara esteve na coordenação geral do evento em 2012.

Tua generosidade em nos presentear com este apetitoso convite e reverência a cada lugar que sedia os Brasileiros de 2012 para cá, já é por nós esperada com toda a naturalidade, alegria, encanto e responsabilidade.

Recentemente, dia 24 de fevereiro, os representantes de cada lugar do Brasil que possue grupos de estudos sobre Winnicott estiveram aqui em Fortaleza. Os Encontros Brasileiros têm sua programação científica feita a várias mãos e a deste ano, não tardará a ser divulgada.

Na sua maioria, esses grupos foram iniciados ou inspirados na pessoa e profissional que Outeiral foi e que por alguns anos saiu desbravando e conquistando espaços neste nosso Brasil. Divulgando as ideias, a teoria e  a clínica de Winnicott.

Os Encontros Brasileiros são fruto desta caminhada dele e de vários colegas e amigos unidos pela mesma alegria, paixão, brincar, seriedade e compromisso com a divulgação e estudos sobre D.W.Winnicott.

Obrigada Guedes!

Aguardamos por  todos vocês aqui!

Que venha mais um Encontro Brasileiro… mais um grande encontro de amigos como Outeiral gostava de dizer.

Abraço,

Denile

P.S. Peço que, se possível, repassem esta Carta Aberta acrescentando seus contatos, para que assim, o maior número de pessoas possam ter acesso a este generoso convite pela mãos e beleza da  escrita poética de Guedes.

Querido Guedes!
Quanta poesia e sonoridade nas suas palavras… Sentimos tudo nessa travessia descrita de Brasília a Fortaleza. Sentimos a brisa, mergulhamos no mar de histórias e contribuições de infinitos autores que compõem a nossa história maior de pertencimento a um grupo e a um lugar.  Lá vamos nós novamente enlaçados pelo afeto, compartilhando tantos saberes e experiências compondo mais um Encontro Brasileiro. Que venha Fortaleza, Terra do Sol! Que maravilha encontrar nossos amigos mais uma vez!
O sentimento é de gratidão por sermos recebidos lá com tanto carinho e cuidado por nossos colegas.
O sentimento é de gratidão pelo seu Rabisco trazendo como sempre Outeiral e nessa carta especialmente de forma tão forte e poética!
Cartas são abraços com ternura.

Seguimos adiante! Com ternura, com respeito, gratidão, de mãos dadas trabalhando e nos encontrando, cada um com o seu Rabisco espontâneo e criativo. Que assim possa continuar a vir-a-ser dos Encontros Winnicott pelo Brasil a fora!

Com afeto
Mariana

Querido Guedes,

Você virou, indiscutivelmente, o Poeta de nossos encontros!! Obrigada pelo belíssimo texto que nos inspira e dá forças para nossos trabalhos. E que prepara o ambiente de afetividade e trocas que teremos em Fortaleza.

Beijos,
Ana Lila 

Querido Guedes, nosso poeta em prosa e verso e historiador dos nossos encontros passados e futuros…
Cada vez que recebo uma carta aberta tua me sinto feliz. Começa a convocação afetiva que fazes, anualmente, lembrando que a criatividade é o que nos une.
Com tuas lindas palavras, embasadas em teus conhecimentos, começa a nossa viagem, desta vez  Fortaleza! Onde carinhosamente colegas nos esperam e preparam mais um Encontro de amigos.

Assim seja !
Com saudades
Adriana

Obrigado amigo

Sua carta já faz parte dos Encontros. Sempre sensível e nos emocionado , trazendo as novidades, referencias e  saudades dos nossos queridos companheiros que se foram e a esperança de novas parcerias.
Outeiral, Julio e Magali estarão sempre nos nossos corações e novos Encontros nos renovarão. 
Um abraço
Afranio

Querido Guedes,
Chegou tua carta convite e com ela o convite para uma viagem no tempo, de volta ao passado e de volta para o futuro.
Como tu bem o disseste Fortaleza contempla essa dupla possibilidade.
Obrigada por esse convite, por essa poesia em prosa, por esse brincar criativo que mexe com nossa sensibilidade e antecipa os prazeres vindouros.
Um grande abraço,
Denise Martinez Souza

Obrigada abraço
Adrianna Zucchi

Obrigado Guedes! Como sempre, muito bonita e emocionante sua carta/convite para mais um grande encontro de amigos queridos.
Abraços
Joaquim Jorge

Olá, querido amigo, desculpa a demora em abrir meus emails…
(estou respondendo só para ti pq sempre que tento encaminhar a todos deste grupo o email não sai da caixa e acusa algum erro, te agradeço se puderes encaminhar minha resposta a todos nossos amigos)

Que surpresa linda que tive ao ler tua Carta. 
Como sempre, tuas palavras me emocionam. São a condução que nos embala e nos leva até nosso próximo Encontro.
Fiquei especialmente emocionada por lembrares da nossa peça. Tenho pensado muito em toda a história que deu origem à “Primavera em Maresfield Gardens”.
Nossos queridos Outeiral e Ana Leão me chamaram com a ideia de um roteiro retratando o último ano da vida de Freud, adorei a proposta. 
Meses depois, lá estava Outeiral interpretando Freud, em seu último ano, entre amigos… Outeiral era pura poesia e coragem. Viveu e morreu com arte: um arteiro!Um grande abraço!
Luiza Moura

Amigo, você também é um grande poeta da alma! 
Beijo grande
Suely Düek

Ah Guedes,

Da pra sentir o gosto dos Encontros na tua escrita. Que bom ter você  aí para me dar o prazer de participar um pouco mais de perto e sentir a emoção da poesia que é estar entre amigos.

Muita saudade
Ana Leão
Viva a cultura cearense! Parabéns Guedes!! Bj Regina Lima

Querido Poeta 

Consagrado já é, não precisa de elogios, mas que o texto está ótimo e poético, não posso deixar passar. 
Abraço forte
Sergio Kehdy 



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