Denile Thé e Roberta Araujo

Família é sempre um assunto. Entre todos, e desde os mais remotos tempos. Nos seus modelos mais tradicionais e nas suas novas configurações. Seja qual for o cenário em torno do qual chega um bebê, sempre é espaço onde o humano se constitui se faz. Afinal, é inserindo num contexto afetivo que nascemos não só biologicamente, mas psiquicamente. Precisamos uns dos outros para nos reconhecermos enquanto humanos, amarmos e sermos amados. Assim estabelecendo relações significativas ao longo de nossa vida.

O percurso da humanidade quanto a este tema família transitou entre o modelo tradicional, no qual o pai ocupava um lugar inquestionável de lei e de poder e tudo girava em torno dele e do que viesse a ditar como regra. Porém, as mudanças sociais, culturais e econômicas possibilitaram a ideia do amor romântico, onde um homem e uma mulher se uniam em torno do amor e assim poderiam constituir uma família. A qual poderia ser dissolvida caso este amor chegasse ao fim. O divórcio e o anticoncepcional se fizeram presentes dando a mulher maior controle sobre seu corpo, assim como sobre o que sentia. Entretanto, esta se mantinha subordinada ao poder do marido. Atualmente, a noção de família, acima de tudo, se baseia no afeto e no prazer de estarem juntos, independente do gênero. Compartilharem seus sonhos, seus projetos pessoais e profissionais visando uma vida em comum, a qual pode ser vivida por várias configurações como vemos nos dias de hoje, não se restringindo mais a um casal heterossexual e filhos.

É dentro e a partir dos diversos arranjos familiares que o bebê se desenvolve com suas capacidades, seu potencial de saúde ou não. A partir da interação entre a bagagem genética e o ambiente familiar e cultural este se constitui, existe e vem a ser alguém semelhante aos demais, porém singular e único.

Toda a relação estabelecida entre o bebê e quem o cuida, seja a mãe, o pai, a avó seja quem for dentro do contexto de família que exista, é de fundamental importância o vínculo e a confiança estabelecida. A partir dele, a criança tenderá a ir amadurecendo suas potencialidades em todos os sentidos. O valor dos primeiros momentos de uma vida no sentido de ser sustentado, acolhido, cuidado, protegido, respeitado e atendido em suas necessidades físicas e emocionais possibilitam ao bebê o desenvolvimento de alguém autêntico e mais coerente com o que sente, pensa e faz. Ou seja, alguém confiante em si mesmo e no mundo que o rodeia, com capacidades de ser e fazer-se num contexto social e cultural.

Claro, que nenhuma criança é sempre atendida integralmente em suas necessidades. As pequenas falhas do cotidiano fazem parte da trajetória do viver. Afinal, a vida não é perfeita, nem tão previsível como por vezes até gostaríamos. Entretanto, as pequenas falhas podem ser suportadas e reorganizadas nas relações afetivas. Se isso não se faz, poderemos ter situações traumáticas onde a linha da continuidade do amadurecimento das potencialidades de saúde, do crescimento e de um viver criativo podem vir a dificultarem ou impedirem a continuidade do viver, onde teremos um indivíduo emocionalmente adoecido.

A confiabilidade experimentada pela criança oriunda do ambiente familiar estável, independente de sua configuração, possibilita a mesma um enriquecimento de suas relações afetivas, pois mesmo diante das diferenças e das diversidades apresentadas, ela consegue ampliar sua capacidade de amar e receber amor. Isto é, quando se constrói uma confiança interna, é possível ao indivíduo suportar os embates e desafios inerentes à vida de uma forma que seja viável viver e valer a pena viver. Excluir o que não é igual ou semelhante a si e ao experimentado e vivido, geralmente é o mais adoecido e adoecedor caminho.

As transformações culturais, as formas de tradução dos afetos, os imediatismos, as competitividades, as falsas crenças de felicidade constante e a qualquer preço, as dificuldades em suportar as frustrações, os bombardeios de informações numa velocidade onde fica difícil e às vezes impossível fazer sentido o que chega aos sentidos são algumas das características da sociedade contemporânea. Tudo isso gera um impacto direto sobre as estruturas familiares e a organização psíquica do indivíduo, favorecendo uma dissociação entre o sentir, o pensar e o fazer, gerando assim sofrimento e adoecimento psíquico. Os ataques sofridos no contato com o diferente seja ele familiar e/ou pessoal, somados as características da nossa sociedade atual fragilizam o indivíduo, podendo levar a um adoecimento. Neste contexto, o espaço terapêutico se apresenta como um lugar de escuta, acolhida e (re) significação de suas inquietações, angústias e sofrimento psíquico. A contribuição da psicanálise na clínica contemporânea coloca-se como um espaço de cuidado e prevenção, dando continuidade ao amadurecimento emocional. Isto é possível, devido a uma escuta precisa de um profissional num espaço confiável.